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Gigantes do Subúrbio

Posted in Música, Novidades, Random with tags , , , , , , , , , , , , , , on julho 28, 2010 by Jonatas

Muitos críticos musicais e culturais dizem que vivenciamos um início de século fraco na música. Chamam nossa geração músical de “vocalizadores do efêmero”, responsáveis por canções notáveis por um curto período de tempo, mas completamente esquecíveis a longo prazo. É claro que existem muitas bandas assim por ai hoje, mas elas sempre existiram e sempre existirão. Precisamos vislumbrar nuances de genialidade em meio ao mar de novidades diárias que nem sempre valem a pena. E eu me arrisco aqui a dizer que os canadenses do Arcade Fire são muito provavelmente tão incríveis e históricamente relevantes quanto Pink Floyd, Smiths ou The Cure já foram. Aliás, tem tudo para ser maiores, melhores e mais notáveis.

Acompanho a banda desde o início, quando lançaram em 2004 seu disco de estréia “Funeral”. Soturnos, melancólicos e tímidos, deixavam claras suas referências pós-punk iluminadas com poesias sensíveis e uma sonoridade pouco madura. Fiquei impressionado com o show enérgico que apresentaram no Tim Festival nessa época, bastante carismático. Eram diferentes e originais, apesar de pouco maduros ainda.

Então veio em 2006 o bombástico álbum “Neon Bible”. Aqui eles migraram da infância para a maturidade em todos os sentidos. Canções simétricamente perfeitas que rodeavam por inúmeros turbilhões emocionais de uma maneira tão tocante que era impossível tirar o disco do repeat. David Bowie citou que esse era um de seus discos preferidos e convidou a banda para abrir seus shows. Faixas como “Keep the Car Running” e “Intervention” foram elevadas pelos blogs ao patamar de clássicos. As indicações ao Grammy vieram e foram todas engolidas friamente. Para os integrantes o sucesso aparentava ser indiferente. E assim, depois de uma longa tournê sumiram para cumprirem seus projetos pessoais.

Para uma banda completamente underground de rock alternativo um hiato de quatro anos poderia favorecer seu esquecimento, mas surpreendentemente quando anunciaram que lançariam esse ano seu terceiro álbum de inéditas todos comentaram. As expectativas sobre o disco começaram a supervaloriza-lo antes mesmo do lançamento. E claro, a mídia tratou a novidade com certo desdém (com excessão de alguns jornalistas que se consideram cults e preferem remar sempre contra a maré). “The Suburbs”, como resolveram chamar o disco, supostamente não poderia superar seu trabalho anterior. “Neon Bible” seria para sempre a obra-prima da banda. Um grande erro pensar assim…

“The Suburbs” é tão avassaladoramente impressionante que calou o mundo. Não consegui ver uma crítica sequer até o momento que conseguisse descrever a sensação passada por essas 16 canções memoráveis. Todos ficaram de boca aberta com a novidade que se firma como um dos melhores discos da década (senão o melhor). Ficaram tão sem jeito com a situação que em algumas publicações chegaram a dizer que o disco é uma espécie melhorada de “Ok Computer”, clássico do Radiohead. Uma idiotice. Não dá para fazer comparações porque não existe uma referência para se comparar.

A faixa título já arrepia na primeira audição. “Ready to Start” abre o coração como se fosse uma pequena caixa de pandora e deixa fluir todos os sentimentos pelo ar. Assim o disco navega por diversas canções melancólicas e memoráveis até chegar em seu ápce com “Wasted Hours” que é quase um lamento choroso e pulsante ao mesmo tempo. E nesse ponto ele vai desacelerando delicadamente. É um disco perigoso de tão bonito! Ele realmente mexe com todos os sentidos e prende nossa atenção. Uma espécie de “O Apanhador do Campo de Centeio” sonoro. Não há um adjetivo sólido suficiente para descreve-lo.

O Arcade Fire conseguiu consolidar-se (pelo menos para mim) como um gigante da nossa geração. E deveriam ser escutados pelo menos uma vez por todos! Brilhantes e humildes até onde constam, merecem um pouco de atenção.

Jakob Goes Dylan

Posted in Música, Novidades with tags , , , , , , , , on julho 19, 2010 by Jonatas

Durante toda a década de 90 as rádios ficaram infestadas com hits melosos e bem trabalhados da tímida banda Wallflowers, encabeçada pelo subestimado vocalista Jakob Dylan, ilustre filho de um ilustríssimo divisor de águas musical, Bob Dylan. Subestimado porque era inevitável não comparar o filho com o pai. A crítica massacrava alguns versos simples e melodias pop como se fosse obrigação de Jakob criar canções históricas e inteligentes. Sabe como é, a genética não pode falhar.

Mas ele conseguiu calar a boca da mídia. Vendeu milhões fazendo um rock alternativo agradável totalmente diferente do folk com o qual cresceu ouvindo. Não haviam rastros de country ou de blues em suas canções. Nada bucólico ou que soasse interiorano. Letras fáceis e pegajosas bastante coesas. Até conseguiram a benção de outro ícone da música, David Bowie, que permitiu a regravação de uma de suas canções para a trilha sonora de um filme inadequado (“Heroes”, regravada para a trilha do filme Godzilla). Jakob Dylan conseguiu se mostrar original e não ligava se agradava ou não os gregos e os troianos. Até que a banda acabou e fez-se necessário arriscar-se sozinho pela música. E nesse ponto que a situação foi revertida.

A carreira solo de Jakob Dylan soa como Bob Dylan. O folk está lá. O country também. Todos os versos parecem ter sido elaborados simetricamente perfeitos para soarem bucólicos. O vocal sereno meio caipira marca sua presença. Se fechar os olhos consegue até mesmo sentir o cheiro de grama molhada pela manhã naquele sítio isolado da humanidade e do café fresco preparado carinhosamente em um fogão à lenha. O pequeno Dylan decidiu que quer ser igual ao grande Dylan.

Apesar da cópia deslavada as canções são bonitas e em alguns momentos bastante interessantes. Não servem para ser clássicos e muito provavelmente nem atinjam o mainstream, mas valem a pena ser escutadas. Perdeu-se a originalidade (até mesmo visual, afinal o filho é a cara do pai e agora se veste como este também) em busca de uma zona de conforto que não era necessária para um artista competente. Lamentável, mas o que podemos fazer?

O segundo álbum do cantor chamado “Women + County” foi lançado recentemente e já pode ser encontrado na rede. Para ouvir mais trabalhos de sua carreira solo, visite o site oficial ou o MySpace ;)